Análise
da obra de Steinbrecht pelo General Decarpentry
« Le
Gymnase du Cheval »
Foi sem
dúvida nenhuma o poder dos processos de Baucher que conduziram grande parte dos
cavaleiros franceses a preferi-los às práticas da escola antiga, negligenciando
esses anteriores estudos.
Sempre
que a nova doutrina do « inovador » foi analisada ou remexida por uma boa dúzia
de autores hípicos e em particular pelos mestres tais como, o capitão Raabe, ou
o General Faverot de Kerbrech, o método de La Guérinière, não foi para nós
objecto de um estudo aprofundado.
Na
Europa central a influência de Baucher teve sempre algo de falível tendo ele
rapidamente e completamente desaparecido.
Os cavaleiros germânicos tiveram perseverança na prática da arte equestre, paciência, aplicação e engenhosa tenacidade que caracteriza a sua raça.
Os cavaleiros germânicos tiveram perseverança na prática da arte equestre, paciência, aplicação e engenhosa tenacidade que caracteriza a sua raça.
Ficaram
fiéis aos princípios e aos processos dos antigos, eles consideraram que a
melhor expressão tinha sido formulada por La Guérinière na obra « L’Ecole de
Cavalerie » tendo sido qualificada pelos grandes artistas alemães como a «
Bíblia Equestre ».
Longe
de se agarrarem ao texto desta obra, eles analisaram o espírito do método que
ele expõe, aprofundaram as ideias e os seus princípios decompondo o mecanismo
do seu processo acabando na técnica.
Entre
as obras que eles consagraram a este estudo, a obra « Gymnase du Cheval » de Steinbrecht
é certamente o tratado de alta escola mais completo que alguma vez foi escrito,
podemos dizer que é um verdadeiro monumento da arte equestre.
Nasceu
em 1808 Gustav Steinbrecht tendo feito os seus estudos de medicina veterinária
em Berlim, durante o curso aprendeu a montar a cavalo no picadeiro de Seeger,
que não tardou a descobrir os dons excepcionais do seu aluno para a equitação,
após a saída da escola de medicina veterinária, Steinbrecht decidiu seguir a
carreira de cavaleiro. Após oito anos num picadeiro em Magdebourg regressa a
Berlim em 1849 para suceder a Seeger tendo casado com a sua sobrinha, e com a
fobia anti baucherista.
Dez
anos mais tarde toma a direcção do picadeiro de Dessau para regressar
definitivamente a Berlim em 1865 tendo falecido em 1885.
As
notas de Steinbrecht foram redigidas dia após dia e serviram de base à sua
obra, foram escritas no decurso dos seus últimos vinte e cinco anos não tendo
sido ele infelizmente a finalizar e compilar a totalidade da sua obra, sendo a
redacção a partir do trabalho a galope feita por um seu aluno, Plinzner que foi
acusado de ter um pouco mais de seu no que escreveu, que do seu mestre.
Em 1935
o coronel von Heydebreck que tinha sido colocado nas cavalariças do imperador
local onde Plinzner tinha estado na direcção durante os seus últimos anos,
publicou uma nova edição do Gymnase, esforçando-se por distinguir entre a
interpretação de Plinzner e a interpretação de Steinbrecht, teve como objectivo
principal em não modificar nem deformar o espírito da obra magistral que
constitui a obra mais completa exposta sobre o « antigo testamento » equestre
em face do « novo evangelho » que se deve a Baucher.
O
princípio do método de La Guérinière, fielmente exposto e sabiamente
desenvolvido por Steinbrecht é exactamente o oposto do método de Baucher.
Baucher
aplica os seus procedimentos de ginástica a cada uma das partes do cavalo
separadamente, localizando os seus efeitos numa região perfeitamente
delimitada, dedicando-se simplesmente a essa parte do cavalo, através de uma
atitude imposta ao cavalo, isolando por assim dizer as partes do corpo do
cavalo e também evitando a propagação dos efeitos a outras regiões do cavalo,
dizia « combater somente uma resistência de cada vez » ensinava Baucher.
Steinbrecht
ao contrário dizia que se devia constantemente e simultaneamente participar em
todas as partes do corpo do cavalo fazendo isso através da execução de
exercícios.
Será
sempre a totalidade do organismo que age como resistência geral e será ao seu
conjunto que se deve combater, o princípio fundamental dos seus ensinamentos
são bastante bem expressos na frase que ele partilha com o seu mestre Seeger «
é pelo todo, dentro de um conjunto, que devemos constantemente trabalhar o
cavalo ».
Existem
diferenças entre os processos das duas escolas relativamente ao treino e
progressão de cada uma delas e entre os princípios que lhes servem de base.
Baucher
tem como esforço desde o princípio e durante todo o período do seu ensino de
dar ao cavalo uma mobilidade em todos os sentidos.
Steinbrecht
pretende exactamente o contrário, impondo um esforço ao motor do cavalo num
sentido único que é de trás para a frente, onde a massa do cavalo como um todo
tomba pouco a pouco para debaixo do seu completo domínio, entre as barreiras e
as paredes do corredor das suas ajudas, sempre numa direcção o mais rectilínea
possível.
Vai ser
somente quando todas as forças do cavalo são bem captadas e canalizadas que ele
vai transformar a direcção rectilínea numa imposição de encurvação progressiva,
até chegar ao círculo através de uma evolução gradual, sem perder um só
instante o controle absoluto no dispêndio das forças do motor.
Enquanto
a flexibilização do conjunto cavalo é iniciado pelo mínimo de encurvação da
lateral da « raquis », o que Baucher contradiz em absoluto e fala muito pouco.
Vai ser
partindo dos resultados adquiridos na encurvação lateral progressiva da espinha
dorsal do cavalo que se vai comandar todas as partes do corpo do cavalo, sendo
por isso que Steinbrecht passa insensível à flexibilização do plano vertical,
enquanto Baucher vai proceder directamente da frente para trás através do
recuar e de trás para diante pelo « rassembler através do ataques ».
Encontrámos
em cada passo se seguirmos paralelamente as duas progressões, as mesmas
diferenças de concepção e de execução, na finalidade a que se propõe cada um
dos mestres : Steinbrecht procura a ligeireza através do « rassembler » para
ele estes dois estados confundem-se.
Baucher
esforça-se por obter dentro de todas as atitudes um aprumo regular tanto fora
de um estado de « rassembler » como dentro desse estado, para Baucher a
ligeireza e o « rassembler » são estados de estudo distintos.
É
extremamente difícil de analisar a obra de Steinbrecht « Le Gymnase du Cheval »
e quase que impossível de a resumir, todas as partes estão intimamente ligadas
sem as podermos estudar separadamente, pois corremos o risco de romper a
continuidade do seu desenvolvimento, por isso a progressão efectua-se por graus
aos quais não podemos perder a sequência, podemos traçar um esboço da « Gymnase
» seguindo os grandes traços e a linha que conduz desde o ponto de partida até
a sua conclusão.
O cavalo
estando francamente decidido no movimento para diante pelo desenvolvimento do
seu post-mão e pela prática de andamentos activos e procurando confiança no
apoio da mão, Steinbrecht vai esforçar-se por modificar a sua atitude de
conjunto pelo cruzamento progressivo e entrada dos posteriores.
O único
processo que ele emprega com esta finalidade é a flexão lateral alternada de um
lado e do outro da raquis, que treina o avanço relativo para debaixo da massa
do posterior interno, isto é aquele que está colocado do lado concavo da
flexão, para depois chegar à linha direita pelo exercício a que ele chamou «
espádua à frente ».
O
afastamento dos anteriores vai ser menor que o dos posteriores devido à sua
conformação, Steinbrecht leva um dos anteriores para a frente do posterior do
mesmo lado e mantém o cavalo nessa atitude que ele só consegue conservar com o
cavalo encurvado na sua linha dorsal com a ajuda da perna do cavaleiro,
impedindo ao posterior externo escapar do lado oposto da flexão.
A
duração do exercício para cada um dos posteriores alternadamente é muito curta
e progressivo aumento, será enquanto o cavalo conserva uma atitude franca e com
impulsão e facilidade nos movimentos.
O
sentido do jogo dos posteriores não é modificado, eles tem uma progressão na
linha direita, dentro de uma atitude natural do cavalo, será o tronco que vem
repousar sobre o posterior interno mais pesadamente que sobre o oposto, ficando
o posterior interno com uma sobrecarga, impondo-lhe assim uma maior actividade
tanto na flexão como na sua distensão.
Pela
acentuação da flexão lateral do corpo do cavalo, Steinbrecht passa facilmente
da « espádua à frente » à « espádua a dentro » o anterior interno não é mais
levado sozinho para a pista do posterior do mesmo lado, mas levado de fora para
dentro.
O
primeiro grau da espádua a dentro vai surgir quando o anterior externo se
desloque na mesma pista que o posterior interno, vamos dizer que é a espádua a
dentro mínima, caso seja possível dizer isso.
O
cavalo desloca-se agora em duas pistas mas é o antemão que está mais contíguo
do post-mão a pista do anterior externo e do posterior interno confundem-se, o
anterior interno e o posterior externo são separados por duas espessura do
cavalo, a progressão efectua-se ligeiramente em viés de um lado para o outro.
Então
sendo a espádua a dentro um exercício especial que se distingue pela sua
finalidade e pelos meios que a precedem e que a sucedem, para os nossos
vizinhos é uma das milhares de imagens instantâneas de um filme sem eclipses,
um momento na progressão ininterrupta de um trabalho de flexibilização continuo
da raquis, começado sobre um única pista rectilínea para depois ser encurvada,
seguindo em duas pistas até chegar à pirueta sobre as ancas inclusivamente.
Estas
duas interpretações de um texto claro são as características das diferenças de
forma entre o espírito alemão e o latino.
As
consequências do afastamento desta divergência e dos métodos aplicados mostram
isso ainda mais nitidamente.
A
espádua a dentro escrita por Guérinière é um movimento « oblíquo e circular »
mas a sua obliquidade é o elemento novo do exercício na progressão do ensino,
enquanto que a encurvação é a sequência da flexão prévia do cavalo sobre a
linha curva, a espádua a dentro é para Guérinière inseparável.
Para
nós o elemento novo é o passo que é contínuo, sobre a permanência, a
obliquidade foi levada à encurvação até à exaustão por alguns dos nossos
cavaleiros do século XIX.
Eles
colocaram o essencial da espádua a dentro na obliquidade, obtida pela oposição
das espáduas às ancas, pelo efeito lateral de ajudas internas, de tal maneira
que muitos de entre eles tem por equivalência a expressão de espádua a dentro e
garupa para fora que definem como exercícios radicalmente opostos.
Este
desvio do sentido que deram à espádua a dentro e no seu inventor, não se
produziu nos cavaleiros para além do Reno, mas a deformação inversa não foi
poupada, foi também o cavaleiro Schmidt que numa brochura remarcou o trabalho
em duas pistas, tendo rejeitado a espádua a dentro após a confirmação do cavalo
no passo de lado, por receio em alterar a sua encurvação no decurso da procura
da obliquidade.
Por
estar dirigido em sentido inverso da nossa espádua a dentro esta alteração do
pensamento de La Guérinière não foi menos flagrante.
Steinbrecht
soube evitar um e outro e por conseguinte no seu trabalho obteve
simultaneamente e incontestavelmente a vontade de La Guérinière, a obliquidade
do cavalo por proveito no sentido do seu percurso e da sua encurvação do lado
oposto.
Ele
expõe com luxo os detalhes que podem parecer excessivos numa primeira
abordagem, mas quando os comparamos com as 20 ou 25 páginas do seu texto
fechado, depois de alguns parágrafos de ler La Guérinière reconhecemos que se
após a leitura meditarmos nenhum dos detalhes é inútil.
Após
ter cuidadosamente especificado a finalidade do exercício numa série de
flexibilizações de que ele é inseparável e das disposições que convém dar ao
cavalo para conseguirmos alcançar o que pretendemos, ele junta à sua enumeração
um pouco seca das « vantagens » atribuídas por La Guérinière aos efeitos do
movimento em que « como » e o « porquê » de cada uma destas « vantagens » vai
ser o que o autor de « L’ecole de Cavalerie » indica na sua obra.
Depois
Steinbrecht passa à prática e execução do exercício e o resto fica confuso
perante a « plenitude » dos seus ensinamentos.
A regra
de cada ajuda é no entanto exposta não somente no sentido do jogo que lhe é
própria mas por consequência de todas as outras e dentro de uma acção comum, a
submissão do cavalo é então admitida por hipótese.
Escusando-se
de cair ele mesmo em defeitos de corte, acreditamos poder dar uma ideia da
perfeição dos seus estudos sucessivos enumerando todas as partes que concernem
ás regras da rédea exterior direita por exemplo na espádua a dentro à esquerda,
será que por efeitos judiciosamente diferenciados que asseguram a condução do
cavalo no seu percurso, regulando em conformidade com a outra rédea, a flexão
lateral e a altura do pescoço, determinando com a perna interior, o «
rassembler » por oposição com a perna exterior, segurando a fuga lateral do post-mão,
sem falar bem entendido, na sua participação permanente na regulação da
velocidade e na variação da cada um dos efeitos particulares e descritos com
muita minúcia e precisão.
Podemos
com um pouco de má vontade dizer que Steinbrecht não finalizou a sua obra, mas
os eminentes valores dos seus ensinamentos aparecem sem serem contestados e com
uma clareza de interpretação e de estudo, que o personificam inteiramente.
Nesta
sequência ele relata uma a uma, todas as formas de resistência, abertas ou dissimuladas,
que o cavalo pode opor às acções do cavaleiro.
Da
revolta declarada à obediência falsa, todos os modos de insubmissão, de fraude,
de evasão dissimulada, de obediência fictícia, são denunciadas com a indicação
precisa das disposições físicas que levam o cavalo a este tipo de atitudes,
pois para cada uma das resistências, Steinbrecht prescreve um remédio
apropriado.
Ele
indica que as modificações que convém fazer para as reduzir e o jogo teórico
das ajudas e o ajustamento das disposições especiais para caso em particular, a
precisão das descrições que ele menciona fazem a admiração do talento do seu
autor, Steinbrecht era mesmo um mestre.
Tendo
cuidadosamente assegurado às suas ajudas impulsivas um poder irresistível antes
de começar com a flexibilização geral e o « aperfeiçoamento » do conjunto que
resultam da série de flexões da coluna vertebral do cavalo, Steinbrecht
encontra-se após a sua conclusão em condições de impor ao seu aluno as medidas
da « acção » e a « posição » que determina a natureza e a forma dos seus
movimentos e andamentos.
Virtualmente
o cavalo é ensinado e o resto da sua educação não incluí mais do que exercícios
e aplicações de treino de ginástica.
Steinbrecht
continua a sua exposição com uma minuciosa progressão habitual bem entendida e
indicando a solução para cada uma das dificuldades que se pode encontrar.
Não
podemos folhear nem percorrer o « Gymnase » é pois necessário ler do princípio
ao fim sem saltar uma única frase é um verdadeiro trabalho pouco familiar para
alguns cavaleiros mais acostumados ao esforço físico do que ao esforço
intelectual.
Mas
como rapidamente pagamos este esforço da perseveração da leitura, enquanto
ganhamos pela pertinência das observações do autor e seduzidos pela subtileza
do encadeamento que as une, principalmente quando temos a sua própria
experiência de ensino, sentindo a satisfação de encontrar a cada instante
metodicamente formulado, uma das suas observações quase inconscientes que
sugerem alguma confusão e que na prática quando aparecem repentinamente são
como a luz de um feixe de projector.
Não
saberemos testemunhar a grande gratidão do tradutor de uma obra que está até ao
presente quase desconhecida em França apesar do seu valor capital.
Para
efectuar com perfeita fidelidade a tradução para o francês um germanista também
distinguido como ele foi não é suficiente.
Faltava
ainda que seja dobrado por um homem de cavalos experiente e dotado de uma
perseverança a toda a prova como o comandante Edouard Dupond que tem a cultura
equestre e por sua vez de cavaleiro, permitindo concluir a perfeição de um
trabalho esmagador.
O
comandante guardou bem a vontade de vestir em francês o pensamento alemão é uma
obra irrealizável quando se trata de uma obra propriamente técnica.
O
vestido que talhamos na língua francesa é sempre apertado pois as mangas serão
sempre curtas para este tipo colete justo ao corpo.
O
comandante Edouard Dupond deixou à versão francesa do « Gymnase » um amplo
casaco e por isso o mestre Steinbrecht veste a sua obra.
Os
privilégios que disputam os exemplares desta edição não serão para manifestar o
grande agradecimento ao autor mas sim a fiel reconstituição em francês dos
ensinamentos de funcionamento germânico de Steinbrecht.
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