D. José Manuel da Cunha Menezes
Carta enviada a D. José Manuel da Cunha e Menezes pelo General Decarpentry
Eu vos
agradeço muito meu estimado amigo, a vossa carta, assim como os documentos que
teve a amabilidade de anexar.Permita-me que em primeiro lugar vos exprima toda
a minha admiração pelos resultados que obteve no ensino dos seus cavalos, em
particular com o cavalo cinzento em que o piaffer é um verdadeiro modelo.
Gostava
muito de vos lembrar que o meu estudo « Piaffer e Passage » não é a
apresentação de um método geral e exclusivo a estes dois ares, mas somente um
processo “ improvisado ” que eu proponho aos meus compatriotas devido ao
equilíbrio em que eles se encontram nesta época com os seus cavalos ensinados
com vista aos jogos olímpicos.
Tenho para
imprimir, na Suíça, um outro estudo intitulado « L’Equitation Académique » onde
o problema « Piaffer-Passage » é abordado de uma outra forma, muito mais geral
e com mais desenvolvimentos. Eu espero que em breve esteja disponível. Não sei
se leu no « L’Année Hippique » o artigo que aí escrevi sobre os jogos
olímpicos, onde tive a oportunidade de exprimir, com mais detalhes, tudo aquilo
que eu penso sobre a vossa equipa, que o não pude fazer em apenas algumas
linhas no L’Éperon.
Relativamente
ao vosso artigo, não existe uma só palavra com a qual eu não esteja totalmente
de acordo. Num dos capítulos de « L’Équitation Académique » eu insisto
precisamente de uma fora particular e com os mesmos termos que utilizou, sobre
a necessidade de ler e sobre a forma de fazer, não somente com os olhos mas
também com todos os recursos de espírito e de memória, que devem fornecer os
elementos de comparação mais fecundos.
Permita-me
por fim de assinalar à vossa atenção um livro ao qual eu creio poder atribuir
um grande valor e que difere inteiramente dos nossos métodos e dos nossos
processos « latinos ». Refiro-me ao livro « Gimnasium » de Steinbrecht. O livro
é bastante longo e por vezes difuso como são todas as obras alemãs, mas está
cheio de observações penetrantes e de ensinamentos de uma originalidade bem
característica dos cuidados germânicos em tudo que fazem, até mesmo na guerra,
ai !
Queira por
favor, meu estimado amigo, acreditar com os meus agradecimentos e as minhas
felicitações, a expressão dos meus sentimentos de muita sincera simpatia.
Decarpentry
Visconde Paço de Nespereira
Uma Opinião Oportuna
Visconde de Paço de
Nespereira fala sobre “ Meditações Dum Cavaleiro ” o recente livro de D. José
Manuel da Cunha Meneses.
O meu velho amigo e
parente D. José Manuel da Cunha e Meneses, Mestre insigne da Equitação fina,
quis dar-me a inexcedível honra de solicitar a minha opinião acerca dos seus
escritos sobre Equitação, agora compilados.
Hesitei perante o
aspecto insólito e até ridículo que pode revelar o facto de um discípulo vir a
publico emitir opinião sobre a obra do Mestre, tanto mais que em matéria de
equitação fui sempre apenas um caturra estudioso, estudioso por gosto e
necessidade, visto o destino ter-me deparado, para trabalhar, uma serie de
cavalos difíceis, um caturra que nunca conseguiu senão pouco mais do que tornar
alguns desses cavalos, calmos e ligeiros, agradáveis.
Um motivo, porem, me
decidiu, é que durante muitos anos consultei o Mestre D. José da Cunha Meneses
e nele encontrei sempre aquele espírito generoso e compreensivo só próprio dos
Mestres e das pessoas finas, e a sua resposta foi sempre a decisão do caso.
Não deixar de cumprir o
dever de afirmar isto publicamente, foi o motivo que me decidiu.
Monto a cavalo à
cinquenta anos e ainda há meses formulei a D. José Manuel quatro consultas
acerca dum cavalo que estou a trabalhar. Como sempre os seus conselhos
resolveram as dificuldades.
A equitação é ciência e
arte, ciência no sistema ordenado das suas leis, dos seus princípios induzidos
da observação e da experiência de inúmeros casos em referencia à mecânica dos
três andamentos, à estrutura, à configuração e ao equilíbrio do cavalo. Arte na
medida em que na aplicação dos princípios influem a habilidade, o tacto e a
finura do equitador.
Porque não há dois
cavalos iguais quando o equitador deduz aplicando ao caso particular o princípio
geral, surgem como em tudo, as dificuldades próprias de todo o casuísmo, visto
os princípios não terem a maleabilidade da régua « lésbica »
É então que o Mestre se
destaca descobrindo e sentindo a « nuance » o pormenor do caso e sabendo
soluciona-lo.
Foi nestes momentos que
encontrei sempre a decisiva competência do Mestre D. José Manuel da Cunha
Meneses.
Alguém repetiu a Baucher
a opinião então corrente em certo meio : O equitador perfeito seria o que
reunisse o « assiette » do conde D’Aure, as pernas de Lourent Franconi e a mão
de Baucher. O admirável Mestre respondeu : « Dites plutôt, la science de
Baucher, l’assiette, les jambes et la main de tout le monde ». Este episódio é
relatado pelo insigne Mestre General L’Hotte no seu encantador livro « Un Officier
de Cavalerie – Souvenirs du General L’Hotte ». Bela resposta a dar aos que
afirmam o valor exclusivo da sua prática, menosprezando desdenhosamente a
leitura e o estudo e ainda a outros que, tentando disfarçar a impotência da sua
ignorância, atribuem à paciência todo o valor no ensino dos cavalos.
A estas duas afirmações
referiu-se proficientemente o notável equitador Senhor Coronel Luís Almeida
Ribeiro, na interessante revista « Diana ». Foi com especial prazer que pela
primeira vez li referencias oportunas e justas a tais informações.
Os primeiros esquecem-se
de que as obras, os tratados sobre equitação publicados pelos mestres, revelam
também a prática desses mestres, a dos seus professores e a de muitos outros
autores por todos esses consultados. Não terá mais valor, como ensinamento,
esta prática esclarecida por método cientifico, prática de dezenas e dezenas de
Mestres, do que a pratica exclusivamente pessoal de cada um dos desdenhadores
de tratados ? Os segundos, munidos apenas de paciência, chegariam a centenários
esperando inútil e … pacientemente o mínimo resultado possível.
D. José Manuel é um
equitador perfeito, um verdadeiro mestre de Equitação, porque para tanto reúne
e alto grau, todas as condições necessárias, conhecimentos profundos e vastos
da ciência da equitação e dotes pessoais de artista, um tacto finíssimo na
aplicação dos seus conhecimentos.
A meu ver, D. José
Manuel é um rigoroso intérprete de Baucher, do definitivo Baucherismo, o da
última fase de tão grande mestre. Baucher, inovador, criador, trabalhou e
estudou e criou até ao fim da sua longa vida e nos últimos anos modificou em
parte o seu método. Este método tantas vezes subtil, tem sido perfeitamente
interpretado por D. José Manuel da Cunha e Meneses, como mais uma vez se verifica
pela leitura dos seus trabalhos, agora complilados.
Baucher, sábio e também
artista extraordinário, não era luminosamente claro a escrever. A sua
interpretação é difícil muitas vezes. Alguns que foram os seus mais dilectos
discípulos e seguiram até ao fim as suas lições, como os Generais L’Hotte e
Faverot de Kerbrech, atingiram mais límpida e didáctica clareza na exposição do
Método do seu idolatrado Mestre.
O trabalho de D. José
Manuel não é um tratado, mas sim uma compilação de artigos versando certos
pontos de equitação, alguns controvertidos, opinativos.
Creio que acerca de
todos o autor deu claramente a lição definitiva. Este conjunto de escritos de
D. José Manuel pelo seu valor, género, variedade e elevação dos assuntos,
lembra o interessantíssimo trabalho « Questions Equestres » e poderia
constituir, bem condignamente, uma série de capítulos a acrescentar aos XIV
capítulos dessa admirável obra do General L’Hotte.
É esta em síntese, a
minha inútil opinião acerca do notável trabalho do brilhante oficial de
cavalaria e egrégio Mestre de Equitação, D. José Manuel da Cunha e Meneses
Bertalan Nemethy
Bertalan Nemethy foi treinador da equipa de salto de
obstáculos dos EUA entre 1955 a 1980 tendo falecido16 de Janeiro de 2002 com a
idade de 90 anos.
Debaixo da sua direcção os EUA ganharam diversas
medalhas, nomeadamente de prata em 1960 nas Olimpíadas de Roma e em 1972 nas
Olimpíadas de Munique, nos jogos Pan americanos ganhou também várias medalhas
de ouro nos anos de 1959, 1963, 1975 e 1979, individualmente como treinador.
Nos jogos Pan Americanos ganhou medalhas com Mary
Mairs Chapot em 1963 e com Michael Matz em 1979, como treinador Nemethy
participou em 144 Taças das Nações e ganhou quase metade pois ganhou 71 vezes
essa competição, os seus cavaleiros individualmente ganharam grandes prémios
tanto nos EUA como internacionalmente.
As mais notáveis vitórias individuais foram a Medalha
de Ouro de Bill Steinkraus em 1968 na cidade do México nos Jogos Olímpicos e
com Neal Shapiro a medalha de Bronze em 1972 nas olimpíadas de Munique, também
a sua equipa ganhou da Federação Equestre Internacional (FEI) o President's
Trophy em 1966 e 1968.
Nemethy atingiu a sua grande notoriedade e
reconhecimento no salto de obstáculos em 1987, tendo sido feito membro “ Charter
Class ” juntamente com Bill Steinkraus e o lendário saltador Idle Dice.
Tendo sido oficial de cavalaria Húngaro e instrutor na
Real Escola de Cavalaria húngara, Nemethy foi para os E.U.A. em 1952 tendo se
tornado famoso por ter um regime de treino rígido para os cavaleiros americanos
dando principal ênfase no ensino e na ginástica.
Adicionalmente, Nemethy foi quem desenhou o percurso
notável para as Olimpíadas de Los Angeles em 1984 e em 1989 para a final da
taça das Nações.
Ele também ministrou muitas clínicas de treino em
Inglaterra, Irlanda, Suíça, Holanda, Hungria, Canadá, México, Argentina,
Venezuela e Colômbia
Brigadeiro Henrique Callado
Brigadeiro
Henrique Callado nasceu a 12 de Junho de 1920, a sua formação hípica foi
inicialmente transmitida pelos seus pais. Começou a sua participação em provas
desportivas como júnior aos 13 anos, concorrendo três anos depois como sénior.
A
primeira internacionalização ocorreu no Concurso de Madrid em 1943 e no ano
seguinte ganhou o respectivo Grande Prémio. Em 1958, sagrava-se campeão
nacional de hipismo. Integrado na equipa nacional, Henrique Callado disputou 22
Taças de Ouro da Península Ibérica, com vitórias em 16 edições, e 13 Taças das
Nações, sendo por dez vezes o melhor cavaleiro em prova: três em Lisboa, três
em Madrid, duas em Nice, uma em Roma e outra em Aachen. Participou também, na
modalidade de concurso de saltos, nos Jogos Olímpicos de Londres, Helsínquia,
Estocolmo (7o lugar), Roma (10o lugar) e Tóquio.
Em
concursos internacionais de obstáculos obteve um total de 134 vitórias em
competições realizadas em Madrid, Barcelona, Burgos, Bilbau, Corunha, Nice,
Dublin, Aachen, Roma, Lisboa, Cascais e Penina. Do seu palmarés salientam-se
também os triunfos em 62 Grandes Prémios, em três Taças do Generalismo, nas
Potências de Madrid (duas vezes) e de Nice, nos Prémios Campidogllo, em Roma,
no prémio do Principado do Mónaco, no Grande Prémio de França e, por três
vezes, no Prémio Bucephale, do Concurso de Nice, e ainda em dois Prémios do
Concurso de Dublin.
Foi
ainda recordista de Portugal em salto em altura com 2,20 m e em largura com
6,50 m, foi considerado o melhor cavaleiro desportivo Português de todos os
tempos, classificou-se mais de mil e duzentas vezes, das quais mais de três
centenas são vitórias.
Entre
os galardões que foram atribuídos a Henrique Callado contam-se as medalhas de
mérito desportivo, quer de Portugal quer de Espanha, a medalha de bronze da
Ordem Olímpica do Comité internacional, a medalha Nobre Guedes do Comité
Olímpico Português e o emblema de ouro da Federação Equestre Internacional.
D. Diogo De Bragança ( Lafões )
Foi o VIII Marquês de Marialva, nasceu a 14 de
Novembro de 1930, no Palácio do Grilo, em Lisboa, filho dos 5º Duques de Lafões
e Marqueses de Marialva. Desde muito jovem se interessou pelos cavalos tendo
sido um dos primeiros alunos diletantes do Mestre Nuno de Oliveira, considerado
pelo mestre um dos seus melhores alunos e com capacidade para abordar as altas
dificuldades da arte equestre com a maior finura.
Soube harmonizar as noções que adquiriu de uma forma muito
especial, conjugando uma equitação inteligente, feita no equilíbrio entre a
teoria permanente questionada e a prática primorosamente executada.
Publicou em França, " L'Equitation de Tradition Francaise
" livro este que recebeu os maiores elogios, de salientar a excelente
obra " ARTE EQUESTRE - Picaria Antiga Equitação Moderna " obra de
comparação histórica das várias escolas equestres existentes e abordagem
crítica e esclarecedora sobre o panorama equestre da equitação clássica. A sua
última obra " A Equitação em Dicionário Picaresco " revela mais uma
vez a sua faceta artística inserido na equitação ao mais alto nível.
Este eminente cavaleiro desaparecido a 07 de Novembro de 2012 será
sempre uma referência para todos os que pretendem abordar a equitação na sua
forma mais complexa e artística.
« Os Princípios Aplicam-se a todos os
Cavalos »
« A finalidade
da arte não é só montar o animal bem conformado, mas também tirar todo o
partido possível do que for menos bem dotado pela natureza » ( Hunersdorf )
Esta frase
parece ter hoje pouca aplicação, visto a equitação académica quase ser só
aplicada a animais de constituição perfeita, o que lhe tira o caracter de
generalidade apontado nas palavras deste autor alemão.
É de acordo com
este caracter geral que um écuyer será bom se consegue por um
cavalo perfeito de formas a fazer os ares mais difíceis da arte equestre, mas
também precisa de estar apto a ensinar um animal menos bem constituído, não
digo a fazer este ou aquele ar, mas, pelo menos, a equilibra-lo nos três
andamentos.
Qual das duas
tarefas será a mais difícil ? Explorar as qualidades do cavalo bom ou será que
é transformar um animal fisicamente menos apto numa montada equilibrada ?
Se não sei
responder à questão posta, quero contudo acentuar que esta faceta apaixonante,
que consiste em fazer do mau um bom cavalo, está quase posta de lado, visto
exigir muito mais gosto pela arte equestre e, portanto, um estudo e uma prática
muito maiores do que há hoje.
Dantes os
cavalos tinham que se ensinar e tornar agradáveis porque nem todos tinham
dinheiro para comprar animais perfeitos, mas hoje o gosto pela equitação só se
mantém um pouco naquela parte que se aplica aos cavalos bons…, pois são esses
que ganham prémios.
Se a equitação
fosse só isto, seria um privilégio dos ricos ! Não esqueçamos, porém, que são
as naturezas deficientes que desenvolvem a habilidade do cavaleiro, pois não é
montando « pêras doces » que o tacto equestre se afina, e sem este quantos
cavalos bons se põem de parte com o rótulo de maus !
Baucher viu
isto claramente ao escrever na 5ª edicção da Nouvelle Méthod, na
p. 266 o seguinte :
« Mas os
cavaleiros podem ambicionar resultados ainda mais brilhantes. Se conseguirem facilitar
a boa instrução dos cavalos medíocres, tornarão acessível às massas o
estudo da equitação, por colocarem ao alcance das pequenas economias, tão
numerosas no nosso país de igualdade, a prática de uma arte que até
hoje só pôde ser praticada pelas grandes fortunas. Foi esta a finalidade
dos meus trabalhos equestres durante toda a minha vida ».
As obras dos
mestres têm geralmente um defeito, só se aplicam inteiramente ao cavalo bem
conformado, e foi por ter consciência da dificuldade na aplicação correcta dos
seus excelentes princípios gerais que o General Decarpentry abriu capítulos
na Équitation Académique para o trabalho de pilões, com rédeas
longas e fixas, e em inúmeros parágrafos e chamadas explica muitas das
excepções à regra para a execução de um certo ar ou exercício.
A equitação
deve ser aplicável a todos os cavalos como arte que é, e não só aos de
configuração perfeita, mas para isso temos de admitir muitos desvios às regras,
conservando aquela meia dúzia de princípios fixos que o cavaleiro não pode
afastar do ensino ministrado às suas montadas. Como conhecer essas excepções ?
Desenvolvendo o tacto equestre por meio dos conselhos de um mestre, pela
leitura e prática constante.
Como dissemos
acima, o que hoje se procura é arranjar um cavalo bom para ganhar um prémio, e
se para isso já é preciso muita habilidade, mas, sobretudo, seguir um método,
não esqueçamos que para se ensinar uma natureza deficiente só o tacto equestre
elevado ao seu mais alto grau consegue resolver as dificuldades deste problema.
Engº Manuel Carlos Lessa
« O equitador
que trata o animal como uma máquina submissa somente às impressões do momento
sem memória e sem concepção será sempre um mau equitador » Baucher
Ensinar consiste em obter da parte do cavalo, uma
obediência pronta e solícita a todos os pedidos do cavaleiro. Um cavalo
ensinado é um cavalo submisso ao cavaleiro.
Para que um
cavalo esteja ensinado é necessário que :
• O cavalo compreenda as ordens do cavaleiro
• O cavalo se disponha a obedecer
“ La Palisse ”
não teria dito melhor, é no entanto importante repetir estas verdades de
sempre, agora que a nossa escola oficial caiu, neste domínio, em plena heresia.
Quer seja para
inculcar no cavalo o código pelo qual o cavaleiro se vai fazer entender, quer
seja para o convencer a obedecer solicitamente, é a parte psíquica e somente a
ela que o ensino se dirige.
Vejamos os
aspectos filosóficos e as grandes leis sobre as quais nos devemos apoiar.
Um cavalo é um
animal inquieto e receoso que se espanta facilmente. Velho instinto das raças
que, durante centenas de milénios foram perseguidas pelos predadores.
Como todo o
animal, a inquietação do cavalo tem origem na incompreensão, no desconhecido e
no que não lhe é habitual.
Um cavalo
inquieto, triste e em desconfiança, não pode ser um cavalo receptivo.
Para que um
cavalo se mantenha atento e possa rapidamente compreender o que se pretende
dele é, primeiro que tudo, necessário que esteja em confiança. A confiança
torna o cavalo calmo e muitas vezes ( caso lhe seja permitido exprimi-lo )
leva-o a ter demonstrações de alegria.
Um cavalo feliz
é mais receptivo e solícito.
O cavaleiro vê
o cavalo que está a montar, o cavalo não vê o cavaleiro que o monta. Poucas são
as pessoas que se apercebem desta simples realidade.
O cavaleiro,
durante todo o tempo que está em sela, observa o cavalo cuja presença é real e
palpável.
Pelo contrário,
o cavalo não vê o seu cavaleiro. Sente, certamente, a presença deste sobre o
dorso, mas trata-se de um peso a que acaba por se habituar e pode em pouco
tempo deixar de lhe prestar atenção. Uma pessoa que transporta um objecto na
mão deixa muito rapidamente de pensar nele.
O cavalo sente
a pressão da embocadura nas comissuras dos lábios e a pressão nos flancos, das
pernas do cavaleiro, pressões essas que têm um determinado significado de
acordo com o código aprendido. É certo que o cavalo sabe que essas pressões
provém do cavaleiro que o monta, mas pouco a pouco terá tendência a esquecer o
cavaleiro focando-se apenas nas sensações que ele lhe provoca.
A partir daí o
cavalo fica só. Se obedece ao código das ajudas, fá-lo maquinalmente, por
simples hábito ou reflexo. O cavalo passa a obedecer como uma máquina comandada
por uma máquina.
Imaginemos que
nos encontramos sozinhos num aposento. Sobre um visor surgem ordens que
prescrevem gestos que devemos fazer. Pouco a pouco cairemos numa habituação,
que nos fará obedecer a essas ordens, de uma forma monótona e aborrecida.
O mesmo se
passa com o cavalo. A qualidade do ensino é enormemente influenciada pelo “
calor humano ” da comunicação homem animal. A arte equestre em França tem uma
enorme tendência para se fechar em si própria. Sendo, no entanto, esta
actividade baseada na comunicação com um animal, não se deve negligenciar os
inegáveis progressos que se fizeram no domínio da psicologia animal.
O homem deve
por todos os meios tornar a sua presença permanentemente viva, e
perceptível ao cavalo
A primeira
coisa a fazer para podermos ensinar um animal, consiste na necessidade de lhe
inculcar a noção do bem e do mal.
Na base dum
código de compreensão entre o homem e o animal, está a capacidade de comunicar
ao animal o que está correcto e o que está errado. E isto da forma mais simples
e clara possível, visto que caso assim não seja, corremos o risco de não sermos
entendidos pelo animal.
Um ensino que
se satisfaça em habituar empiricamente o cavalo a determinadas reacções, pela
repetição de alguns movimentos, é um ensino medíocre, posto em causa a todo o
momento. Era com base neste tipo de actuação que o grande Baucher catalogava
alguns equitadores de “ maus equitadores ”.
Por outro lado,
se um cavalo compreende claramente o que o cavaleiro lhe pede, se compreende
quando faz bem ou faz mal, torna-se então possível e até fácil, de o convencer
que ele tem todo o interesse em obedecer completa e rapidamente às ordens do
seu cavaleiro. Esse será um ensino sólido, fazendo do cavalo um colaborador
submisso, mas solicito na sua submissão.
Para além
disso, a capacidade, por parte do cavalo, de distinguir o que é bem e o que é
mal oferece uma grande vantagem : a possibilidade de o punir, mesmo que
severamente, sem que tal o enlouqueça.
Punir no
sentido de aplicar um correctivo, não é propriamente um meio de ensino. Mas em
determinados casos, pode ser absolutamente necessário punir com severidade. O
inconveniente de tal comportamento consiste na possibilidade de loucura e
pânico, que tal pode provocar ao cavalo.
Ora essa
loucura é devida, na maioria dos casos, à incompreensão da causa da punição.
Tal incompreensão pode levar mesmo a uma reacção de revolta, caso o animal não
entenda que errou. As correcções são, por isso passíveis de acarretarem pesadas
consequências que podem provocar a perda de confiança do cavalo relativamente
ao seu cavaleiro.
Torna-se, por
isso, necessário :
1 – Por em
pratica um código de comunicação que permita dizer ao cavalo : “ está correcto
” ou “ está errado ” e tal de forma simples e muito clara.
2 – Servir-se
muito frequentemente desse código durante o trabalho para manifestar aprovação
sempre que o cavalo executa correctamente e manifestar reprovação em caso de má
qualidade da obediência.
Este diálogo
permanente obriga o cavalo a pensar no que está a fazer.
Esta
comunicação constante com o homem mantém o espírito do cavalo desperto,
chamando a sua atenção.
Esta é a via
para um ensino de qualidade. Pretende-se convencer o cavalo a obedecer
solicitamente, e, para isso, vamos ensinar-lhe o significado da acção das
ajudas e paralelamente persuadi-lo que, no caso de obediência franca e
imediata, ela receberá em troca conforto e gentileza, em caso de desobediência,
desconforto, fadiga e eventualmente punição.
Vamos dar-lhe
lições exigindo que ele esteja muito atento às nossas acções, na falta do que a
obediência não poderá ser de grande qualidade.
Um ser atento é
um ser concentrado. Ora, nada é mais fatigante que a tensão cerebral, sobretudo
para um animal cujo cérebro pode ser comparado ao de uma criança muito pequena.
Existe um só ponto em que todas as escolas do mundo são unânimes, na
necessidade de momentos de descontracção.
Não se pode
solicitar por muito tempo a atenção de um aluno pois corre-se o risco de o
vermos pouco a pouco a perder concentração, ressentindo-se a qualidade do seu
trabalho. Não se trata de má vontade da parte do aluno, mas somente fadiga
cerebral devido ao tempo da lição. Tal é verdadeiro para o homem comum e mais
verdadeiro ainda para os cavalos.
Evidentemente
que estamos, neste nosso ponto de vista, a colocar de lado o trabalho de treino
e cultura física. Um cavalo pode efectuar um trote prolongado, ou um bom
galope, sem ter que manter o espírito atento. Nós falamos de ensino
propriamente dito. Aí os tempos de trabalho não devem exceder mais do que,
dois, três minutos cada um.
É absolutamente
necessário cada dois a três minutos parar o cavalo após um movimento bem
executado, e descontrai-lo. Esta descontracção consiste em deixar ao cavalo
toda a liberdade para que se possa distender, resfolegar…Esta paragem não
necessita de ser muito longa – trinta a sessenta segundos são suficientes – no
entanto é absolutamente necessária. Este momento de descontracção total só é
suficiente para o cavalo se relaxar e manter-se atento no recomeço do trabalho.
A importância
que damos a este trabalho por períodos curtos, alternando com momentos de
descontracção é tal, que fazemos dele um ponto da nossa doutrina e não só um
simples método de trabalho.
Existe ainda
uma outra razão para esses momentos de descontracção. Uma vez que o cavalo não
fala, é por isso a nós cavaleiros que compete pensar naquilo que ele nos possa
querer dizer.
Logo que um
cavaleiro, depois de ter trabalhado o seu cavalo por um período de tempo
excessivo, pára por fim com as suas exigências, que faz o animal ? Num grande
número de casos o cavalo coça o focinho num dos seus anteriores.
Se ele se
coça…é porque se sentia incomodado. Procedamos mais uma vez a uma comparação.
Imaginemos por
exemplo, que estamos a frequentar um curso universitário. Estamos atentos às
palavras de um conferencista e que nos esforçamos por compreender e seguir o
seu raciocínio.
Consideremos
que temos as nossas mãos amarradas atrás das costas sem que isso, no entanto,
nos cause qualquer incómodo, isto até que uma mosca vem pousar no nosso nariz…e
nós sem meios para a podermos enxotar.
Estaremos a
partir daí no mesmo estado de receptividade ? Escutaremos o conferencista com a
mesma qualidade de atenção, estamos nós preocupados com a impossibilidade de
coçar o nariz ?
Passa-se
exactamente o mesmo com o cavalo, mas uma vez que ele não o pode dizer,
compete-nos a nós pensar nisso.
Um cavalo que
trabalha numa certa colocação necessita fatalmente ao fim de um determinado
período de tempo de distender os seus músculos ( tal como um homem que trabalha
dobrado a sachar a terra necessita de tempos a tempos de se endireitar para
reposicionar os seus rins ) ou então o suor e os insectos vão provocar-lhe mau
estar.
Se o cavaleiro
prossegue o trabalho durante muito tempo, o cavalo contrariado na sua
necessidade de distender os músculos ou de se coçar, começará pouco a pouco a
tornar-se nervoso, agitado, incapaz de manter a atenção e começará a tornar-se
receptivo.
Quantos
cavaleiros não vemos a acusarem os seus cavalos de mau carácter, de nervosismo,
de má vontade, tudo isso apenas por falta de psicologia.
Vamos repetir
mais uma vez visto ser um ponto fundamental : o tempo de trabalho consagrado ao
ensino propriamente dito deve ser entrecortado de tempos de descontracção que
embora curtos devem ser frequentes.
Impulsão !
Muito se fala neste assunto mas poucas são as indicações relativas à maneira de
a desenvolver. É necessário, em primeiro lugar, lembrar que a impulsão tal qual
foi definida desde sempre pelos grandes clássicos é unicamente de ordem moral.
Trata-se da
solicitude, com base na qual, o cavalo está sempre pronto a obedecer aos pedidos
do seu cavaleiro.
Devemos ter o
cuidado de pensar com clareza, e não confundir a impulsão ( de ordem moral ) e
a aceleração ou velocidade ( de ordem física ).
Vimos também
que é muito ténue a zona de separação entre a verdadeira impulsão e um ligeiro
nervosismo. É por este facto que por vezes se ouve dizer que :
Os cavalos mais
chegados ao sangue têm mais impulsão. Quando na realidade, eles são mas é mais
nervosos.
Como podemos
nós ensinar um cavalo a manter-se impulsionado ?
Uma vez que a
impulsão não é mais que a solicitude e prontidão com as quais o cavalo responde
aos pedidos do cavaleiro, está, a qualidade dessa impulsão, directamente ligada
à atenção que o cavalo presta à comunicação das ajudas.
É mais que
evidente, que um cavalo que está distraído, desatento e adormecido não pode
estar bem impulsionado.
E o que é um
cavalo que obedece solicita e prontamente aos pedidos do cavaleiro senão um
cavalo impulsionado ?
Assim teremos o
problema resolvido se, como já dissemos, o nosso cavalo aguardar atento os
pedidos do seu cavaleiro.
Para isso será
necessário e suficiente que o cavaleiro, todos os dias durante três, quatro,
cinco tempos de trabalho ( dois a três minutos cada ), não passe mais do que
três segundos sem comunicar uma ordem diferente.
Exemplo : Saída
a trote. Imediatamente : alongamento do trote…Logo que o cavalo tenha feito
duas passadas em alongamento : redução. Logo : curva para a direita. Apenas
percorridos 60 graus da curva à direita : curva para a esquerda. Logo de
seguida : paragem. Dois segundos de imobilidade depois : recuar. Mais dois
segundos de imobilidade : saída a galope, etc.
O princípio
consiste em que, logo que o cavalo tenha obedecido a uma ordem, o cavaleiro lhe
dê outra ordem de imediato.
Esta rapidez,
esta cadência acelerada de ordens constantemente diferentes monopoliza a
atenção do cavalo. Ele não pode, por isso, desviar a sua atenção.
É evidente que
estes tempos de trabalho deverão ser curtos, visto serem, no aspecto cerebral,
muito cansativas para o cavalo.
O cavalo, com
esta forma de trabalhar, aprende a manter-se atento e a concentrar-se nas
ajudas do seu cavaleiro. Se o cavalo estiver atento a essas acções, ele estará
automaticamente ligeiro ( porque responde de imediato às solicitações ) e
sobretudo, ao “ escutar ” as ordens ele obedecerá pronta e solicitamente. Ele
estará, por isso, impulsionado !
Demos este
exemplo prático para não cairmos no erro habitual que consiste em dizer : “ O
cavalo deve estar impulsionado ” sem dar, no entanto, qualquer explicação de
como o fazer.
Para resumir os
pontos doutrinais do nosso ensino :
O ensino é
de ordem psíquica
O general
L’Hotte colocou a calma como primeiro objectivo da sua famosa trilogia ( NT :
calmo, para a frente, direito ). Consideramos que é necessário ir mais longe na
busca desta base psíquica. Por isso :
Calma –
Confiança – Alegria
A comunicação
nunca poderá ser de alta qualidade a não ser que o cavalo tenha consciência
permanente da presença do homem tanto no plano físico como moral.
Não poderá
nunca existir ensino sem que se dê ao cavalo a noção do bem e do mal e
sem que se crie uma linguagem que permita exprimir essa noção.
O ensino só
poderá progredir se o cavalo estiver atento, o que só acontecerá se o trabalho
propriamente dito for executado em períodos curtos de tempo.
Por fim, a
expressão suprema dum ensino de alta qualidade será a indispensável impulsão
característica não só de um cavalo atento, mas também confiante
e alegre no trabalho.
Traduzido de :
“ L’ Équitation de Sauts d’Obstacles ”
“ Chapitre XVII – Le Dressage ”
“ Jean d’Orgeix ”
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Tradução feita pelo Eng.º Manuel Carlos Lessa
ENCONTROS - Philippe Karl / Art of Riding






