Cavaleiros Notáveis


D. José Manuel da Cunha Menezes



Carta enviada a D. José Manuel da Cunha e Menezes pelo General Decarpentry

Eu vos agradeço muito meu estimado amigo, a vossa carta, assim como os documentos que teve a amabilidade de anexar.Permita-me que em primeiro lugar vos exprima toda a minha admiração pelos resultados que obteve no ensino dos seus cavalos, em particular com o cavalo cinzento em que o piaffer é um verdadeiro modelo.

Gostava muito de vos lembrar que o meu estudo « Piaffer e Passage » não é a apresentação de um método geral e exclusivo a estes dois ares, mas somente um processo “ improvisado ” que eu proponho aos meus compatriotas devido ao equilíbrio em que eles se encontram nesta época com os seus cavalos ensinados com vista aos jogos olímpicos.

Tenho para imprimir, na Suíça, um outro estudo intitulado « L’Equitation Académique » onde o problema « Piaffer-Passage » é abordado de uma outra forma, muito mais geral e com mais desenvolvimentos. Eu espero que em breve esteja disponível. Não sei se leu no « L’Année Hippique » o artigo que aí escrevi sobre os jogos olímpicos, onde tive a oportunidade de exprimir, com mais detalhes, tudo aquilo que eu penso sobre a vossa equipa, que o não pude fazer em apenas algumas linhas no L’Éperon.

Relativamente ao vosso artigo, não existe uma só palavra com a qual eu não esteja totalmente de acordo. Num dos capítulos de « L’Équitation Académique » eu insisto precisamente de uma fora particular e com os mesmos termos que utilizou, sobre a necessidade de ler e sobre a forma de fazer, não somente com os olhos mas também com todos os recursos de espírito e de memória, que devem fornecer os elementos de comparação mais fecundos.

Permita-me por fim de assinalar à vossa atenção um livro ao qual eu creio poder atribuir um grande valor e que difere inteiramente dos nossos métodos e dos nossos processos « latinos ». Refiro-me ao livro « Gimnasium » de Steinbrecht. O livro é bastante longo e por vezes difuso como são todas as obras alemãs, mas está cheio de observações penetrantes e de ensinamentos de uma originalidade bem característica dos cuidados germânicos em tudo que fazem, até mesmo na guerra, ai !

Queira por favor, meu estimado amigo, acreditar com os meus agradecimentos e as minhas felicitações, a expressão dos meus sentimentos de muita sincera simpatia.



Decarpentry




Visconde Paço de Nespereira




Uma Opinião Oportuna


Visconde de Paço de Nespereira fala sobre “ Meditações Dum Cavaleiro ” o recente livro de D. José Manuel da Cunha Meneses.

O meu velho amigo e parente D. José Manuel da Cunha e Meneses, Mestre insigne da Equitação fina, quis dar-me a inexcedível honra de solicitar a minha opinião acerca dos seus escritos sobre Equitação, agora compilados.

Hesitei perante o aspecto insólito e até ridículo que pode revelar o facto de um discípulo vir a publico emitir opinião sobre a obra do Mestre, tanto mais que em matéria de equitação fui sempre apenas um caturra estudioso, estudioso por gosto e necessidade, visto o destino ter-me deparado, para trabalhar, uma serie de cavalos difíceis, um caturra que nunca conseguiu senão pouco mais do que tornar alguns desses cavalos, calmos e ligeiros, agradáveis.

Um motivo, porem, me decidiu, é que durante muitos anos consultei o Mestre D. José da Cunha Meneses e nele encontrei sempre aquele espírito generoso e compreensivo só próprio dos Mestres e das pessoas finas, e a sua resposta foi sempre a decisão do caso.
Não deixar de cumprir o dever de afirmar isto publicamente, foi o motivo que me decidiu.

Monto a cavalo à cinquenta anos e ainda há meses formulei a D. José Manuel quatro consultas acerca dum cavalo que estou a trabalhar. Como sempre os seus conselhos resolveram as dificuldades.

A equitação é ciência e arte, ciência no sistema ordenado das suas leis, dos seus princípios induzidos da observação e da experiência de inúmeros casos em referencia à mecânica dos três andamentos, à estrutura, à configuração e ao equilíbrio do cavalo. Arte na medida em que na aplicação dos princípios influem a habilidade, o tacto e a finura do equitador.

Porque não há dois cavalos iguais quando o equitador deduz aplicando ao caso particular o princípio geral, surgem como em tudo, as dificuldades próprias de todo o casuísmo, visto os princípios não terem a maleabilidade da régua « lésbica »

É então que o Mestre se destaca descobrindo e sentindo a « nuance » o pormenor do caso e sabendo soluciona-lo.

Foi nestes momentos que encontrei sempre a decisiva competência do Mestre D. José Manuel da Cunha Meneses.

Alguém repetiu a Baucher a opinião então corrente em certo meio : O equitador perfeito seria o que reunisse o « assiette » do conde D’Aure, as pernas de Lourent Franconi e a mão de Baucher. O admirável Mestre respondeu : « Dites plutôt, la science de Baucher, l’assiette, les jambes et la main de tout le monde ». Este episódio é relatado pelo insigne Mestre General L’Hotte no seu encantador livro « Un Officier de Cavalerie – Souvenirs du General L’Hotte ». Bela resposta a dar aos que afirmam o valor exclusivo da sua prática, menosprezando desdenhosamente a leitura e o estudo e ainda a outros que, tentando disfarçar a impotência da sua ignorância, atribuem à paciência todo o valor no ensino dos cavalos.

A estas duas afirmações referiu-se proficientemente o notável equitador Senhor Coronel Luís Almeida Ribeiro, na interessante revista « Diana ». Foi com especial prazer que pela primeira vez li referencias oportunas e justas a tais informações.

Os primeiros esquecem-se de que as obras, os tratados sobre equitação publicados pelos mestres, revelam também a prática desses mestres, a dos seus professores e a de muitos outros autores por todos esses consultados. Não terá mais valor, como ensinamento, esta prática esclarecida por método cientifico, prática de dezenas e dezenas de Mestres, do que a pratica exclusivamente pessoal de cada um dos desdenhadores de tratados ? Os segundos, munidos apenas de paciência, chegariam a centenários esperando inútil e … pacientemente o mínimo resultado possível.

D. José Manuel é um equitador perfeito, um verdadeiro mestre de Equitação, porque para tanto reúne e alto grau, todas as condições necessárias, conhecimentos profundos e vastos da ciência da equitação e dotes pessoais de artista, um tacto finíssimo na aplicação dos seus conhecimentos.

A meu ver, D. José Manuel é um rigoroso intérprete de Baucher, do definitivo Baucherismo, o da última fase de tão grande mestre. Baucher, inovador, criador, trabalhou e estudou e criou até ao fim da sua longa vida e nos últimos anos modificou em parte o seu método. Este método tantas vezes subtil, tem sido perfeitamente interpretado por D. José Manuel da Cunha e Meneses, como mais uma vez se verifica pela leitura dos seus trabalhos, agora complilados.

Baucher, sábio e também artista extraordinário, não era luminosamente claro a escrever. A sua interpretação é difícil muitas vezes. Alguns que foram os seus mais dilectos discípulos e seguiram até ao fim as suas lições, como os Generais L’Hotte e Faverot de Kerbrech, atingiram mais límpida e didáctica clareza na exposição do Método do seu idolatrado Mestre.

O trabalho de D. José Manuel não é um tratado, mas sim uma compilação de artigos versando certos pontos de equitação, alguns controvertidos, opinativos.
Creio que acerca de todos o autor deu claramente a lição definitiva. Este conjunto de escritos de D. José Manuel pelo seu valor, género, variedade e elevação dos assuntos, lembra o interessantíssimo trabalho « Questions Equestres » e poderia constituir, bem condignamente, uma série de capítulos a acrescentar aos XIV capítulos dessa admirável obra do General L’Hotte.

É esta em síntese, a minha inútil opinião acerca do notável trabalho do brilhante oficial de cavalaria e egrégio Mestre de Equitação, D. José Manuel da Cunha e Meneses






Bertalan Nemethy




Bertalan Nemethy foi treinador da equipa de salto de obstáculos dos EUA entre 1955 a 1980 tendo falecido16 de Janeiro de 2002 com a idade de 90 anos.

Debaixo da sua direcção os EUA ganharam diversas medalhas, nomeadamente de prata em 1960 nas Olimpíadas de Roma e em 1972 nas Olimpíadas de Munique, nos jogos Pan americanos ganhou também várias medalhas de ouro nos anos de 1959, 1963, 1975 e 1979, individualmente como treinador.

Nos jogos Pan Americanos ganhou medalhas com Mary Mairs Chapot em 1963 e com Michael Matz em 1979, como treinador Nemethy participou em 144 Taças das Nações e ganhou quase metade pois ganhou 71 vezes essa competição, os seus cavaleiros individualmente ganharam grandes prémios tanto nos EUA como internacionalmente.

As mais notáveis vitórias individuais foram a Medalha de Ouro de Bill Steinkraus em 1968 na cidade do México nos Jogos Olímpicos e com Neal Shapiro a medalha de Bronze em 1972 nas olimpíadas de Munique, também a sua equipa ganhou da Federação Equestre Internacional (FEI) o President's Trophy em 1966 e 1968.

Nemethy atingiu a sua grande notoriedade e reconhecimento no salto de obstáculos em 1987, tendo sido feito membro “ Charter Class ” juntamente com Bill Steinkraus e o lendário saltador Idle Dice.

Tendo sido oficial de cavalaria Húngaro e instrutor na Real Escola de Cavalaria húngara, Nemethy foi para os E.U.A. em 1952 tendo se tornado famoso por ter um regime de treino rígido para os cavaleiros americanos dando principal ênfase no ensino e na ginástica.

Adicionalmente, Nemethy foi quem desenhou o percurso notável para as Olimpíadas de Los Angeles em 1984 e em 1989 para a final da taça das Nações.

Ele também ministrou muitas clínicas de treino em Inglaterra, Irlanda, Suíça, Holanda, Hungria, Canadá, México, Argentina, Venezuela e Colômbia





Brigadeiro Henrique Callado





Brigadeiro Henrique Callado nasceu a 12 de Junho de 1920, a sua formação hípica foi inicialmente transmitida pelos seus pais. Começou a sua participação em provas desportivas como júnior aos 13 anos, concorrendo três anos depois como sénior.

A primeira internacionalização ocorreu no Concurso de Madrid em 1943 e no ano seguinte ganhou o respectivo Grande Prémio. Em 1958, sagrava-se campeão nacional de hipismo. Integrado na equipa nacional, Henrique Callado disputou 22 Taças de Ouro da Península Ibérica, com vitórias em 16 edições, e 13 Taças das Nações, sendo por dez vezes o melhor cavaleiro em prova: três em Lisboa, três em Madrid, duas em Nice, uma em Roma e outra em Aachen. Participou também, na modalidade de concurso de saltos, nos Jogos Olímpicos de Londres, Helsínquia, Estocolmo (7o lugar), Roma (10o lugar) e Tóquio.

Em concursos internacionais de obstáculos obteve um total de 134 vitórias em competições realizadas em Madrid, Barcelona, Burgos, Bilbau, Corunha, Nice, Dublin, Aachen, Roma, Lisboa, Cascais e Penina. Do seu palmarés salientam-se também os triunfos em 62 Grandes Prémios, em três Taças do Generalismo, nas Potências de Madrid (duas vezes) e de Nice, nos Prémios Campidogllo, em Roma, no prémio do Principado do Mónaco, no Grande Prémio de França e, por três vezes, no Prémio Bucephale, do Concurso de Nice, e ainda em dois Prémios do Concurso de Dublin.

Foi ainda recordista de Portugal em salto em altura com 2,20 m e em largura com 6,50 m, foi considerado o melhor cavaleiro desportivo Português de todos os tempos, classificou-se mais de mil e duzentas vezes, das quais mais de três centenas são vitórias.

Entre os galardões que foram atribuídos a Henrique Callado contam-se as medalhas de mérito desportivo, quer de Portugal quer de Espanha, a medalha de bronze da Ordem Olímpica do Comité internacional, a medalha Nobre Guedes do Comité Olímpico Português e o emblema de ouro da Federação Equestre Internacional.






D. Diogo De Bragança ( Lafões )


 

Foi o VIII Marquês de Marialva, nasceu a 14 de Novembro de 1930, no Palácio do Grilo, em Lisboa, filho dos 5º Duques de Lafões e Marqueses de Marialva. Desde muito jovem se interessou pelos cavalos tendo sido um dos primeiros alunos diletantes do Mestre Nuno de Oliveira, considerado pelo mestre um dos seus melhores alunos e com capacidade para abordar as altas dificuldades da arte equestre com a maior finura.

Soube harmonizar as noções que adquiriu de uma forma muito especial, conjugando uma equitação inteligente, feita no equilíbrio entre a teoria permanente questionada e a prática primorosamente executada.

Publicou em França, " L'Equitation de Tradition Francaise " livro este que recebeu os maiores elogios, de salientar a excelente obra " ARTE EQUESTRE - Picaria Antiga Equitação Moderna " obra de comparação histórica das várias escolas equestres existentes e abordagem crítica e esclarecedora sobre o panorama equestre da equitação clássica. A sua última obra " A Equitação em Dicionário Picaresco " revela mais uma vez a sua faceta artística inserido na equitação ao mais alto nível.

Este eminente cavaleiro desaparecido a 07 de Novembro de 2012 será sempre uma referência para todos os que pretendem abordar a equitação na sua forma mais complexa e artística.   


« Os Princípios Aplicam-se a todos os Cavalos »

« A finalidade da arte não é só montar o animal bem conformado, mas também tirar todo o partido possível do que for menos bem dotado pela natureza » ( Hunersdorf )

Esta frase parece ter hoje pouca aplicação, visto a equitação académica quase ser só aplicada a animais de constituição perfeita, o que lhe tira o caracter de generalidade apontado nas palavras deste autor alemão.

É de acordo com este caracter geral que um écuyer será bom se consegue por um cavalo perfeito de formas a fazer os ares mais difíceis da arte equestre, mas também precisa de estar apto a ensinar um animal menos bem constituído, não digo a fazer este ou aquele ar, mas, pelo menos, a equilibra-lo nos três andamentos.

Qual das duas tarefas será a mais difícil ? Explorar as qualidades do cavalo bom ou será que é transformar um animal fisicamente menos apto numa montada equilibrada ?

Se não sei responder à questão posta, quero contudo acentuar que esta faceta apaixonante, que consiste em fazer do mau um bom cavalo, está quase posta de lado, visto exigir muito mais gosto pela arte equestre e, portanto, um estudo e uma prática muito maiores do que há hoje.

Dantes os cavalos tinham que se ensinar e tornar agradáveis porque nem todos tinham dinheiro para comprar animais perfeitos, mas hoje o gosto pela equitação só se mantém um pouco naquela parte que se aplica aos cavalos bons…, pois são esses que ganham prémios.

Se a equitação fosse só isto, seria um privilégio dos ricos ! Não esqueçamos, porém, que são as naturezas deficientes que desenvolvem a habilidade do cavaleiro, pois não é montando « pêras doces » que o tacto equestre se afina, e sem este quantos cavalos bons se põem de parte com o rótulo de maus !
Baucher viu isto claramente ao escrever na 5ª edicção da Nouvelle Méthod, na p. 266 o seguinte :

 « Mas os cavaleiros podem ambicionar resultados ainda mais brilhantes. Se conseguirem facilitar a boa instrução dos cavalos medíocres, tornarão acessível às massas o estudo da equitação, por colocarem ao alcance das pequenas economias, tão numerosas no nosso país de igualdade, a prática de uma arte que até hoje só pôde ser praticada pelas grandes fortunas. Foi esta a finalidade dos meus trabalhos equestres durante toda a minha vida ».

As obras dos mestres têm geralmente um defeito, só se aplicam inteiramente ao cavalo bem conformado, e foi por ter consciência da dificuldade na aplicação correcta dos seus excelentes princípios gerais que o General Decarpentry abriu capítulos na Équitation Académique para o trabalho de pilões, com rédeas longas e fixas, e em inúmeros parágrafos e chamadas explica muitas das excepções à regra para a execução de um certo ar ou exercício.

A equitação deve ser aplicável a todos os cavalos como arte que é, e não só aos de configuração perfeita, mas para isso temos de admitir muitos desvios às regras, conservando aquela meia dúzia de princípios fixos que o cavaleiro não pode afastar do ensino ministrado às suas montadas. Como conhecer essas excepções ? Desenvolvendo o tacto equestre por meio dos conselhos de um mestre, pela leitura e prática constante.

Como dissemos acima, o que hoje se procura é arranjar um cavalo bom para ganhar um prémio, e se para isso já é preciso muita habilidade, mas, sobretudo, seguir um método, não esqueçamos que para se ensinar uma natureza deficiente só o tacto equestre elevado ao seu mais alto grau consegue resolver as dificuldades deste problema.      





Engº Manuel Carlos Lessa



« O equitador que trata o animal como uma máquina submissa somente às impressões do momento sem memória e sem concepção será sempre um mau equitador »  Baucher

Ensinar consiste em obter da parte do cavalo, uma obediência pronta e solícita a todos os pedidos do cavaleiro. Um cavalo ensinado é um cavalo submisso ao cavaleiro.

Para que um cavalo esteja ensinado é necessário que :

• O cavalo compreenda as ordens do cavaleiro

• O cavalo se disponha a obedecer

“ La Palisse ” não teria dito melhor, é no entanto importante repetir estas verdades de sempre, agora que a nossa escola oficial caiu, neste domínio, em plena heresia.

Quer seja para inculcar no cavalo o código pelo qual o cavaleiro se vai fazer entender, quer seja para o convencer a obedecer solicitamente, é a parte psíquica e somente a ela que o ensino se dirige.

Vejamos os aspectos filosóficos e as grandes leis sobre as quais nos devemos apoiar.

Um cavalo é um animal inquieto e receoso que se espanta facilmente. Velho instinto das raças que, durante centenas de milénios foram perseguidas pelos predadores.

Como todo o animal, a inquietação do cavalo tem origem na incompreensão, no desconhecido e no que não lhe é habitual.
Um cavalo inquieto, triste e em desconfiança, não pode ser um cavalo receptivo.

Para que um cavalo se mantenha atento e possa rapidamente compreender o que se pretende dele é, primeiro que tudo, necessário que esteja em confiança. A confiança torna o cavalo calmo e muitas vezes ( caso lhe seja permitido exprimi-lo ) leva-o a ter demonstrações de alegria.

Um cavalo feliz é mais receptivo e solícito.

O cavaleiro vê o cavalo que está a montar, o cavalo não vê o cavaleiro que o monta. Poucas são as pessoas que se apercebem desta simples realidade.
O cavaleiro, durante todo o tempo que está em sela, observa o cavalo cuja presença é real e palpável.

Pelo contrário, o cavalo não vê o seu cavaleiro. Sente, certamente, a presença deste sobre o dorso, mas trata-se de um peso a que acaba por se habituar e pode em pouco tempo deixar de lhe prestar atenção. Uma pessoa que transporta um objecto na mão deixa muito rapidamente de pensar nele.

O cavalo sente a pressão da embocadura nas comissuras dos lábios e a pressão nos flancos, das pernas do cavaleiro, pressões essas que têm um determinado significado de acordo com o código aprendido. É certo que o cavalo sabe que essas pressões provém do cavaleiro que o monta, mas pouco a pouco terá tendência a esquecer o cavaleiro focando-se apenas nas sensações que ele lhe provoca.

A partir daí o cavalo fica só. Se obedece ao código das ajudas, fá-lo maquinalmente, por simples hábito ou reflexo. O cavalo passa a obedecer como uma máquina comandada por uma máquina.

Imaginemos que nos encontramos sozinhos num aposento. Sobre um visor surgem ordens que prescrevem gestos que devemos fazer. Pouco a pouco cairemos numa habituação, que nos fará obedecer a essas ordens, de uma forma monótona e aborrecida.

O mesmo se passa com o cavalo. A qualidade do ensino é enormemente influenciada pelo “ calor humano ” da comunicação homem animal. A arte equestre em França tem uma enorme tendência para se fechar em si própria. Sendo, no entanto, esta actividade baseada na comunicação com um animal, não se deve negligenciar os inegáveis progressos que se fizeram no domínio da psicologia animal.

O homem deve por todos os meios tornar a sua presença permanentemente viva, e perceptível ao cavalo

A primeira coisa a fazer para podermos ensinar um animal, consiste na necessidade de lhe inculcar a noção do bem e do mal.

Na base dum código de compreensão entre o homem e o animal, está a capacidade de comunicar ao animal o que está correcto e o que está errado. E isto da forma mais simples e clara possível, visto que caso assim não seja, corremos o risco de não sermos entendidos pelo animal.

Um ensino que se satisfaça em habituar empiricamente o cavalo a determinadas reacções, pela repetição de alguns movimentos, é um ensino medíocre, posto em causa a todo o momento. Era com base neste tipo de actuação que o grande Baucher catalogava alguns equitadores de “ maus equitadores ”.

Por outro lado, se um cavalo compreende claramente o que o cavaleiro lhe pede, se compreende quando faz bem ou faz mal, torna-se então possível e até fácil, de o convencer que ele tem todo o interesse em obedecer completa e rapidamente às ordens do seu cavaleiro. Esse será um ensino sólido, fazendo do cavalo um colaborador submisso, mas solicito na sua submissão.

Para além disso, a capacidade, por parte do cavalo, de distinguir o que é bem e o que é mal oferece uma grande vantagem : a possibilidade de o punir, mesmo que severamente, sem que tal o enlouqueça.

Punir no sentido de aplicar um correctivo, não é propriamente um meio de ensino. Mas em determinados casos, pode ser absolutamente necessário punir com severidade. O inconveniente de tal comportamento consiste na possibilidade de loucura e pânico, que tal pode provocar ao cavalo.

Ora essa loucura é devida, na maioria dos casos, à incompreensão da causa da punição. Tal incompreensão pode levar mesmo a uma reacção de revolta, caso o animal não entenda que errou. As correcções são, por isso passíveis de acarretarem pesadas consequências que podem provocar a perda de confiança do cavalo relativamente ao seu cavaleiro.

Torna-se, por isso, necessário :

1 – Por em pratica um código de comunicação que permita dizer ao cavalo : “ está correcto ” ou “ está errado ” e tal de forma simples e muito clara.

2 – Servir-se muito frequentemente desse código durante o trabalho para manifestar aprovação sempre que o cavalo executa correctamente e manifestar reprovação em caso de má qualidade da obediência.

Este diálogo permanente obriga o cavalo a pensar no que está a fazer.
Esta comunicação constante com o homem mantém o espírito do cavalo desperto, chamando a sua atenção.

Esta é a via para um ensino de qualidade. Pretende-se convencer o cavalo a obedecer solicitamente, e, para isso, vamos ensinar-lhe o significado da acção das ajudas e paralelamente persuadi-lo que, no caso de obediência franca e imediata, ela receberá em troca conforto e gentileza, em caso de desobediência, desconforto, fadiga e eventualmente punição.

Vamos dar-lhe lições exigindo que ele esteja muito atento às nossas acções, na falta do que a obediência não poderá ser de grande qualidade.

Um ser atento é um ser concentrado. Ora, nada é mais fatigante que a tensão cerebral, sobretudo para um animal cujo cérebro pode ser comparado ao de uma criança muito pequena. Existe um só ponto em que todas as escolas do mundo são unânimes, na necessidade de momentos de descontracção.

Não se pode solicitar por muito tempo a atenção de um aluno pois corre-se o risco de o vermos pouco a pouco a perder concentração, ressentindo-se a qualidade do seu trabalho. Não se trata de má vontade da parte do aluno, mas somente fadiga cerebral devido ao tempo da lição. Tal é verdadeiro para o homem comum e mais verdadeiro ainda para os cavalos.

Evidentemente que estamos, neste nosso ponto de vista, a colocar de lado o trabalho de treino e cultura física. Um cavalo pode efectuar um trote prolongado, ou um bom galope, sem ter que manter o espírito atento. Nós falamos de ensino propriamente dito. Aí os tempos de trabalho não devem exceder mais do que, dois, três minutos cada um.

É absolutamente necessário cada dois a três minutos parar o cavalo após um movimento bem executado, e descontrai-lo. Esta descontracção consiste em deixar ao cavalo toda a liberdade para que se possa distender, resfolegar…Esta paragem não necessita de ser muito longa – trinta a sessenta segundos são suficientes – no entanto é absolutamente necessária. Este momento de descontracção total só é suficiente para o cavalo se relaxar e manter-se atento no recomeço do trabalho.

A importância que damos a este trabalho por períodos curtos, alternando com momentos de descontracção é tal, que fazemos dele um ponto da nossa doutrina e não só um simples método de trabalho.

Existe ainda uma outra razão para esses momentos de descontracção. Uma vez que o cavalo não fala, é por isso a nós cavaleiros que compete pensar naquilo que ele nos possa querer dizer.

Logo que um cavaleiro, depois de ter trabalhado o seu cavalo por um período de tempo excessivo, pára por fim com as suas exigências, que faz o animal ? Num grande número de casos o cavalo coça o focinho num dos seus anteriores.

Se ele se coça…é porque se sentia incomodado. Procedamos mais uma vez a uma comparação.

Imaginemos por exemplo, que estamos a frequentar um curso universitário. Estamos atentos às palavras de um conferencista e que nos esforçamos por compreender e seguir o seu raciocínio.
Consideremos que temos as nossas mãos amarradas atrás das costas sem que isso, no entanto, nos cause qualquer incómodo, isto até que uma mosca vem pousar no nosso nariz…e nós sem meios para a podermos enxotar.

Estaremos a partir daí no mesmo estado de receptividade ? Escutaremos o conferencista com a mesma qualidade de atenção, estamos nós preocupados com a impossibilidade de coçar o nariz ?
Passa-se exactamente o mesmo com o cavalo, mas uma vez que ele não o pode dizer, compete-nos a nós pensar nisso.

Um cavalo que trabalha numa certa colocação necessita fatalmente ao fim de um determinado período de tempo de distender os seus músculos ( tal como um homem que trabalha dobrado a sachar a terra necessita de tempos a tempos de se endireitar para reposicionar os seus rins ) ou então o suor e os insectos vão provocar-lhe mau estar.

Se o cavaleiro prossegue o trabalho durante muito tempo, o cavalo contrariado na sua necessidade de distender os músculos ou de se coçar, começará pouco a pouco a tornar-se nervoso, agitado, incapaz de manter a atenção e começará a tornar-se receptivo.

Quantos cavaleiros não vemos a acusarem os seus cavalos de mau carácter, de nervosismo, de má vontade, tudo isso apenas por falta de psicologia.

Vamos repetir mais uma vez visto ser um ponto fundamental : o tempo de trabalho consagrado ao ensino propriamente dito deve ser entrecortado de tempos de descontracção que embora curtos devem ser frequentes.

Impulsão ! Muito se fala neste assunto mas poucas são as indicações relativas à maneira de a desenvolver. É necessário, em primeiro lugar, lembrar que a impulsão tal qual foi definida desde sempre pelos grandes clássicos é unicamente de ordem moral.

Trata-se da solicitude, com base na qual, o cavalo está sempre pronto a obedecer aos pedidos do seu cavaleiro.

Devemos ter o cuidado de pensar com clareza, e não confundir a impulsão ( de ordem moral ) e a aceleração ou velocidade ( de ordem física ).
Vimos também que é muito ténue a zona de separação entre a verdadeira impulsão e um ligeiro nervosismo. É por este facto que por vezes se ouve dizer que :

Os cavalos mais chegados ao sangue têm mais impulsão. Quando na realidade, eles são mas é mais nervosos.

Como podemos nós ensinar um cavalo a manter-se impulsionado ?

Uma vez que a impulsão não é mais que a solicitude e prontidão com as quais o cavalo responde aos pedidos do cavaleiro, está, a qualidade dessa impulsão, directamente ligada à atenção que o cavalo presta à comunicação das ajudas.
É mais que evidente, que um cavalo que está distraído, desatento e adormecido não pode estar bem impulsionado.

E o que é um cavalo que obedece solicita e prontamente aos pedidos do cavaleiro senão um cavalo impulsionado ?

Assim teremos o problema resolvido se, como já dissemos, o nosso cavalo aguardar atento os pedidos do seu cavaleiro.

Para isso será necessário e suficiente que o cavaleiro, todos os dias durante três, quatro, cinco tempos de trabalho ( dois a três minutos cada ), não passe mais do que três segundos sem comunicar uma ordem diferente.

Exemplo : Saída a trote. Imediatamente : alongamento do trote…Logo que o cavalo tenha feito duas passadas em alongamento : redução. Logo : curva para a direita. Apenas percorridos 60 graus da curva à direita : curva para a esquerda. Logo de seguida : paragem. Dois segundos de imobilidade depois : recuar. Mais dois segundos de imobilidade : saída a galope, etc.

O princípio consiste em que, logo que o cavalo tenha obedecido a uma ordem, o cavaleiro lhe dê outra ordem de imediato.

Esta rapidez, esta cadência acelerada de ordens constantemente diferentes monopoliza a atenção do cavalo. Ele não pode, por isso, desviar a sua atenção.
É evidente que estes tempos de trabalho deverão ser curtos, visto serem, no aspecto cerebral, muito cansativas para o cavalo.

O cavalo, com esta forma de trabalhar, aprende a manter-se atento e a concentrar-se nas ajudas do seu cavaleiro. Se o cavalo estiver atento a essas acções, ele estará automaticamente ligeiro ( porque responde de imediato às solicitações ) e sobretudo, ao “ escutar ” as ordens ele obedecerá pronta e solicitamente. Ele estará, por isso, impulsionado !

Demos este exemplo prático para não cairmos no erro habitual que consiste em dizer : “ O cavalo deve estar impulsionado ” sem dar, no entanto, qualquer explicação de como o fazer.

Para resumir os pontos doutrinais do nosso ensino :

O ensino é de ordem psíquica

O general L’Hotte colocou a calma como primeiro objectivo da sua famosa trilogia ( NT : calmo, para a frente, direito ). Consideramos que é necessário ir mais longe na busca desta base psíquica. Por isso :

Calma – Confiança – Alegria

A comunicação nunca poderá ser de alta qualidade a não ser que o cavalo tenha consciência permanente da presença do homem tanto no plano físico como moral.

Não poderá nunca existir ensino sem que se dê ao cavalo a noção do bem e do mal e sem que se crie uma linguagem que permita exprimir essa noção.
O ensino só poderá progredir se o cavalo estiver atento, o que só acontecerá se o trabalho propriamente dito for executado em períodos curtos de tempo.

Por fim, a expressão suprema dum ensino de alta qualidade será a indispensável impulsão característica não só de um cavalo atento, mas também confiante e alegre no trabalho.

Traduzido de :
“ L’ Équitation de Sauts d’Obstacles ”
“ Chapitre XVII – Le Dressage ”
“ Jean d’Orgeix ”




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